O presidente da Rússia, Vladimir Putin, prometeu neste sábado (24) esmagar a maior rebelião militar em solo russo desde os anos 1990. Falou em traição do grupo mercenário Wagner, liderado por seu antigo aliado Ievguêni Prigojin.
O rebelde, por sua vez, afirmou ter tomado controle dos principais prédios administrativos da cidade de Rostov-do-Don, no sul do país, além de estruturas do Comando Militar do Sul -peça central na engrenagem da Guerra da Ucrânia, na qual o Wagner lutou e que agora é criticada por Prigojin.
Não se via tal movimentação na Rússia desde que Boris Ieltsin lidou à bala com uma revolta parlamentar em 1993 e nas duas guerras de secessão da Tchetchênia, em 1994-1996 e 1999-2000.
“Ambições excessivas levaram à traição. É um golpe contra a Rússia e seu povo. Nossas ações para proteger a pátria-mãe serão duras”, disse Putin. Todos que entraram deliberadamente no caminho da traição, que prepararam uma rebelião armada, que adotaram o caminho da chantagem e métodos terroristas, irão sofrer a punição inevitável.”
O presidente falou em rede nacional de TV no começo da manhã deste sábado (madrugada no Brasil) e estava visivelmente irritado. Prigojin, afinal, era conhecido até há pouco como “o chef de Putin”, responsável pela alimentação do Kremlin desde os anos 2000 e, desde 2014, dono de um crescente exército particular a serviço do líder.
Em uma concessão à gravidade da situação, Putin afirmou que “este é o mesmo tipo de golpe que a Rússia sentiu em 1917”.
“Intrigas e politicagem nas costas do Exército e do povo levaram ao maior choque, a destruição do Exército, o colapso do Estado, a perda de muitos territórios e, no fim, a tragédia e guerra civil. Russos mataram russos, irmãos mataram irmãos.”
Ele se referia aos passos que levaram ao golpe bolchevista que derrubou o governo que havia removido o czar do poder em 1917, levando à Guerra Civil Russa, que matou milhões até a formação da União Soviética, em 1922.
Logo depois da fala, Prigojin foi ao Telegram e mudou seu tom, criticando pela primeira vez o ex-chefe -até aqui, só havia atacado a liderança militar, a começar pelo ministro Serguei Choigu (Defesa). “O presidente comete um grande erro quando fala em traição. Somos patriotas, estamos lutando pela pátria-mãe. Não queremos corrupção. Estamos prontos para morrer.”
Em campo, foi como se a guerra no país vizinho tivesse recomeçado. “Passei a madrugada em claro. Onde moro, no sul de Rostov, as coisas estão calmas, mas as ruas estão bem vazias. No centro, o governo pediu para ninguém ir, e eu não arrisquei”, afirmou Ivan, um comerciante da cidade centro da crise que pede para não ter o sobrenome identificado.
Quem arriscou captou imagens com celulares que agora correm o mundo, de soldados do Wagner cercando o quartel-general da Polícia Nacional e pelo menos dois tanques, além de diversos blindados que o grupo usou na Ucrânia, nas ruas da região central.
